MARCOS 2

Este capítulo inicia com outra obra de poder que teve lugar em uma casa em particular, quando depois de algum tempo Ele foi novamente a Cafarnaum. Desta vez, a fé de um tipo muito robusto aparece, e isso, notavelmente, por parte dos amigos e não por parte daquele que sofria. O Senhor estava novamente pregando a Palavra. Esse era o seu principal serviço; a obra de cura foi incidental.
Os quatro amigos tinham fé do tipo que sorri diante das impossibilidades e diz: “isso será feito”, e Jesus viu isso. Ele tratou imediatamente com o lado espiritual das coisas, concedendo perdão de pecados ao paralítico. Isso era blasfêmia para os escribas argumentadores que estavam presentes. Eles estavam certos o bastante em seus pensamentos de que ninguém, a não ser Deus, pode perdoar pecados, mas estavam totalmente errados em não discernir que Deus estava presente entre eles e falando na Pessoa do Filho do Homem. O Filho do Homem estava na Terra e na Terra Ele tem autoridade para perdoar pecados.
O perdão dos pecados, porém, não é algo que é visível aos olhos dos homens; deve ser aceito por fé na Palavra de Deus. A cura instantânea de um caso grave de enfermidade corporal é visível aos olhos dos homens, e o Senhor realizou esse milagre. Eles não podiam liberar o homem das garras de sua doença mais do que poderiam perdoar seus pecados. Jesus poderia fazer as duas coisas com igual facilidade. Ele fez as duas coisas, recorrendo ao milagre no corpo como prova do milagre na alma. Assim, Ele coloca as coisas em sua ordem correta. O milagre espiritual era primário, o corporal era apenas secundário.
Aqui novamente o milagre foi instantâneo e completo. O homem, que tinha sido completamente impotente, de repente se levantou, pegou sua cama e caminhou diante deles todos de uma forma que induziu glória a Deus vinda de todos os lábios. O Senhor ordenou e o homem teve que obedecer, pois a capacitação foi junto com a ordem.
Este incidente, que enfatiza o objetivo espiritual do serviço de nosso Senhor, é seguido pelo chamamento de Levi, conhecido mais tarde por nós como Mateus, o publicano. O chamamento deste homem para seguir o Senhor exemplifica a poderosa atração de Sua palavra. Uma coisa era chamar pescadores humildes de suas redes e fadigas: outra era chamar um homem de posses da agradável tarefa de ajuntar dinheiro. Mas Ele fez isso com duas palavras. “Segue-Me”, caiu sobre os ouvidos de Levi com tal poder que “ele se levantou e O seguiu”. Deus conceda que possamos sentir o poder dessas duas palavras em nossos corações!
Que maravilhoso vislumbre recebemos do Servo do Senhor, Sua prontidão, Sua autoridade, Seu poder, Sua dependência, Sua devoção, Sua compaixão, Sua recusa do popular e superficial em favor do espiritual e permanente; e, finalmente, Sua poderosa atração.
Tendo se levantado para seguir o Senhor, Levi logo declarou seu discipulado de maneira prática. Ele recebeu seu recém-encontrado Senhor em sua casa junto com um grande número de publicanos e pecadores, mostrando assim algo do espírito do Senhor. Ele trocou o estar “sentado na coletoria”, pela distribuição de generosidades, para que outros pudessem se sentar à sua mesa. Ele começou a cumprir a palavra “Ele espalhou, deu aos necessitados” (Sl 112:9 – ARF), e evidentemente sem ter sido instruído a fazê-lo. Ele começou a mostrar hospitalidade ao seu próprio grupo, a fim de que eles também pudessem conhecer aqu’Ele que havia conquistado seu coração.
Nisso, ele é um excelente exemplo para nós mesmos. Ele começou a se dedicar aos outros. Ele fez a coisa que mais prontamente chegou à sua mão. Ele reuniu aqueles que eram necessitados, e que sabiam disso, para se encontrarem com o Senhor, em vez daqueles que se satisfaziam religiosamente. Ele descobriu que Jesus era um Doador, que estava procurando por aqueles que fossem recebedores.
Tudo isso foi observado pelos satisfeitos escribas e fariseus, que expressaram sua objeção na forma de uma pergunta aos seus discípulos. Por que Ele Se associa com tais pessoas tão baixas e degradadas? Os discípulos não precisavam responder, pois Ele mesmo assumiu o desafio. Sua resposta foi completa e satisfatória e tornou-se quase um ditado proverbial. Os doentes precisam do médico e os pecadores precisam do Salvador. Ele não veio chamar os justos, mas os pecadores.
Os escribas e fariseus podem ter sido bem versados ​​na lei, mas não tinham entendimento da graça. Ora Ele era o Servo da graça de Deus, e Levi teve um vislumbre disso. Temos nós isso? Muito mais do que Levi, deveríamos ter isso, visto que vivemos no momento em que o dia da graça chegou ao seu ponto culminante. No entanto, é possível que nos sintamos um pouco magoados com Deus porque Ele é tão bom para com as pessoas que gostaríamos de denunciar, como Jonas fez no caso dos ninivitas, e como os fariseus fizeram com os pecadores. O grande Servo da graça de Deus está à disposição de todos os que necessitam d’Ele.
O próximo incidente – versículos 18 a 22 – revela os opositores novamente em seu trabalho. Antes eles se queixaram do Mestre para os discípulos: agora se queixam dos discípulos para o Mestre. Eles evidentemente não tinham coragem de enfrentar face a face. Este método evasivo de achar defeitos é muito comum: vamos abandoná-lo. Em nenhum dos casos os discípulos precisaram responder. Quando os fariseus mantiveram a exclusividade da lei, Ele os enfrentou afirmando a expansividade da graça, e os silenciou. Agora eles desejam colocar sobre os discípulos a servidão da lei, e Ele efetivamente afirma a liberdade da graça.
Da parábola ou figura que Ele usou claramente se deduz que Ele mesmo era o Noivo – a Pessoa de importância central. Sua presença governava tudo e assegurava uma maravilhosa plenitude de suprimento. Atualmente Ele estaria ausente e então o jejum seria suficientemente apropriado. Vamos tomar nota disso, pois vivemos no dia em que o jejum é algo apropriado. O Noivo está ausente há muito tempo e estamos esperando por Ele. No momento em que o Senhor falou, os discípulos estavam na posição de um remanescente divino em Israel recebendo o Messias quando Ele veio. Depois do Pentecostes, eles foram batizados em um só corpo e foram edificados sobre os fundamentos daquela cidade que é chamada de “a Noiva, a esposa do Cordeiro” (Ap 21:9 – ARA). Então eles têm o lugar da Noiva, em vez do lugar dos filhos das bodas; e essa posição é nossa hoje. Isso só torna ainda mais claro que não festejar, mas jejuar é o adequado para nós. O jejum é abster-se de coisas lícitas, a fim de estar mais inteiramente para Deus, e não apenas a abstinência de alimentos para uma certa exibição.
Os fariseus faziam de tudo para manter a lei intacta. O perigo para os discípulos, como depois os acontecimentos provaram, não foi tanto isso, mas a tentativa de uma mistura do judaísmo com a graça que o Senhor Jesus trouxe. O sistema legal era como uma roupa desgastada ou um velho odre de vinho. Ele estava trazendo aquilo que era como um forte pedaço de tecido novo, ou vinho novo com seus poderes de expansão. Nos Atos dos Apóstolos, podemos ver como as velhas formas exteriores da lei se perderam diante do poder expansivo do evangelho.
De fato, vemos isso no próximo incidente com o qual o capítulo 2 se encerra. Mais uma vez os fariseus reclamam dos discípulos para o Mestre. A ofensa agora era que suas atividades não se encaixavam exatamente no “odre velho” de certos regulamentos relativos ao sábado. Os fariseus pressionaram a guarda do sábado até o ponto em que condenavam até mesmo esfregar espigas de milho na mão, como se estivessem trabalhando num moinho. Eles contendiam por uma interpretação muito rígida da lei nesses assuntos menores. Eles eram as pessoas que guardavam a lei com cuidado meticuloso, ao passo que consideravam os discípulos frouxos.
O Senhor enfrentou sua queixa e defendeu Seus discípulos lembrando-os de duas coisas. Primeiro, eles deveriam ter conhecido as Escrituras, que registravam o modo como Davi havia se alimentado a si mesmo e a seus seguidores em uma emergência. Aquilo que normalmente não era lícito foi permitido em um dia em que as coisas estavam fora de curso em Israel por causa da rejeição do legítimo rei. 1 Samuel 21 nos fala sobre isso. Mais uma vez as coisas estavam fora de curso e o legítimo Rei prestes a ser rejeitado. Em ambos os casos, as necessidades relacionadas com o Ungido do Senhor devem ser mantidas para se sobreporem aos detalhes relacionados com as exigências cerimoniais da lei.
Segundo, o sábado foi instituído para o benefício do homem, e não o contrário. Portanto, o homem tem precedência sobre o sábado; e o Filho do homem, que detém o domínio sobre todos os homens, de acordo com o Salmo 8, deve ser o Senhor do sábado e, portanto, competente para dispor dele de acordo com a Sua vontade. Quem eram os fariseus para desafiar Seu direito de fazer isso? – apesar de Ele ter vindo entre os homens na forma de um Servo.

O Senhor do sábado estava entre os homens e estava sendo rejeitado. Sob essas circunstâncias, a disposição desses defensores da lei cerimonial estava fora de lugar. Seus “odres” estavam velhos e incapazes de conter a expansiva graça e autoridade do Senhor. O “odre” sábado se quebra diante de seus olhos.

MARCOS 3

Os fariseus, no entanto, não estavam de modo algum convencidos, e reabriram toda a questão um pouco mais tarde, quando, num outro sábado, Ele entrou em contato com a necessidade humana em uma das sinagogas deles. O conflito se enfureceu em torno do homem com uma mão atrofiada. Eles observavam Jesus esperando que encontrassem um ponto de ataque. Ele aceitou o desafio que estava silente em seus corações dizendo ao homem: “Levanta-te” (v. 3), tornando-o bem destacado, e assegurando que o desafio fosse percebido por todos os presentes.
Outro ponto referente ao sábado é agora levantado. Seria intenção de Deus pela lei proibir tanto o bem quanto o mal? O sábado consideraria ilegal um ato de misericórdia?
A pergunta: “É lícito fazer bem ... ou fazer mal?” pode ser conectada com Tiago 4:17. Se soubermos fazer o bem e ainda assim o omitimos, é pecado. Deveria o Servo perfeito de Deus, que conhecia o bem e, além disso, tinha poder total para executá-lo, reter Sua mão de fazê-lo, porque aconteceu de ser o dia de sábado? Impossível!
Desta maneira impressionante, o santo Servo de Deus vindicou Seu ministério de misericórdia na presença daqueles que teriam amarrado Suas mãos com rígidas interpretações da lei de Deus. É importante que aprendamos a lição ensinada por tudo isso, no caso de cairmos em erro semelhante. A “ lei de Cristo” é muito diferente em caráter e espírito da “lei de Moisés”, mas pode ser mal utilizada de maneira semelhante. Se o jugo leve e suave de Cristo for tão retorcido a ponto de se tornar opressivo, e também um obstáculo positivo para o escoamento da graça e da bênção, torna-se uma perversão mais grave do que qualquer coisa que vemos nesses versículos.
Os corações dos fariseus eram duros. Eles eram suficientemente cuidadosos sobre os aspectos técnicos da lei, mas eram rígidos quanto a qualquer preocupação com a necessidade humana ou qualquer sentimento de seu próprio pecado. Jesus viu o estado terrível em que estavam e ficou condoído, mas não reteve a bênção. Ele curou o homem e os deixou em pecado. Eles ficaram indignados porque Ele havia quebrado um dos seus preciosos pontos legais. Eles se foram para ultrajar uma das principais considerações da lei ao tramarem homicídio. Tal é o farisaísmo!
Diante desse ódio mortal, o Senhor Se retirou com Seus discípulos. Vemo-Lo Se retirando do brilho da popularidade no final do capítulo 1. Ele não cortejou o favor, nem desejou provocar discórdia. Aqui encontramos o Servo perfeito agindo exatamente do modo que é ordenado aos menores servos em 2 Timóteo 2:24.
Mas tal era a Sua atratividade que os homens O oprimiam mesmo quando Se retirava. Multidões se aglomeravam em torno d’Ele, e Sua graça e poder se manifestavam de muitas formas, e espíritos imundos reconheciam n’Ele o Mestre a Quem tinham que obedecer, embora Ele não aceitasse seu testemunho. Ele abençoava e libertava os homens, mas não procurava nada deles. No início prepararam-Lhe um pequeno barco no lago no qual poderia Se retirar da opressão da multidão; e então subiu a uma montanha, onde Ele chamou a Si somente aqueles que desejava, e deles Ele escolheu doze que deviam ser apóstolos.
Assim, Ele não apenas respondeu ao ódio dos líderes religiosos Se retirando deles, mas também chamando os doze que no devido tempo deveriam sair como uma extensão de Seu inigualável serviço. Ele assim preparou para alargar o serviço e o testemunho. Os doze escolhidos deveriam estar com Ele, e então, quando seu período de instrução e preparação estivesse completo, Ele os enviaria. O período de seu treinamento dura até o versículo 6 de Marcos 6. No versículo 7 daquele capítulo, começamos a ler o relato do envio deles.
Esse “estarem com Ele” é de imensa importância para aqueles que são chamados ao serviço. É tão necessário para nós como foi para eles. Eles tiveram Sua presença e companhia na Terra. Não temos isso, mas temos o Seu Espírito dado a nós e a Sua Palavra escrita. Assim, podemos estar habilitados pela oração a manter contato com Ele, e obter a instrução espiritual, a única que nos capacita a servi-Lo inteligentemente. Os doze foram primeiramente escolhidos, em seguida instruídos, em seguida enviados com um poder conferido a eles. Esta é a ordem divina, e vemos essas coisas expostas nos versículos 14 e 15.
Tendo chamado e escolhido os doze sobre a montanha, Ele retornou às habitações dos homens e estava em uma casa. As multidões se reuniram imediatamente. A atração que Ele exercia era irresistível, e as exigências sobre Ele eram de tal forma que não havia tempo para as refeições. Assim, a primeira coisa a ser testemunhada pelos doze quando começaram a estar com Ele foi essa forte maré de interesse e a aparente popularidade de seu Mestre.
Eles logo viram um outro lado das coisas, e em primeiro lugar que Ele era totalmente mal entendido por aqueles que estavam mais próximos a Ele de acordo com a carne. Os “Seus parentes estavam, sem dúvida, cheios de preocupação bem-intencionada para com Ele. Eles não podiam entender tais trabalhos incessantes e sentiam que deveriam colocar uma mão restritora sobre Ele como Se estivesse fora de Si. Luz sobre esta atitude extraordinária da parte deles é lançada em João 7:5. Neste ponto, em Seu serviço, Seus irmãos não acreditavam n’Ele, e aparentemente até Sua mãe ainda não tinha uma concepção clara do que Ele realmente estava fazendo.
Mas em segundo lugar, havia inimigos, que estavam se tornando ainda mais amargos e inescrupulosos. No versículo 6 de nosso capítulo, vimos os fariseus fazendo amizade com seus antagonistas, os herodianos, a fim de tramar Sua morte. Agora encontramos os escribas fazendo uma viagem de Jerusalém para se opor e denunciá-Lo. Isso eles fazem da maneira mais imprudente, atribuindo Suas obras de misericórdia ao poder do diabo. Não foi apenas um abuso vulgar, mas algo deliberado e astuto. Eles não podiam negar o que Ele fez, mas tentaram obscurecer Seu caráter. Eles presenciaram Seus milagres de misericórdia, e então deliberada e oficialmente os declararam como sendo as obras do diabo. Esse foi o caráter de sua blasfêmia, e é bom estarmos bem esclarecidos a respeito disso em vista das palavras do Senhor no versículo 29.
Mas antes de tudo, Ele os chamou para Si e lhes respondeu com um apelo à razão. A oposição blasfema deles envolvia um absurdo. Eles sugeriram, com efeito, que Satanás estava empenhado em expulsar Satanás; que seu reino e casa estavam divididos contra si mesmo. Se isso fosse verdade, significaria o fim de todo a obra satânica. Satanás é muito perspicaz para agir dessa maneira.
Temos que admitir, infelizmente, que nós, Cristãos, não fomos tão astutos para agir dessa maneira. A Cristandade está cheia de divisão dessa maneira autodestrutiva, e é o próprio Satanás, sem dúvida, que é o instigador disso. Não fosse o poder do Senhor Jesus no alto permanecer inalterado, e o Espírito Santo habitando na verdadeira Igreja de Deus, a confissão pública do Cristianismo teria perecido há muito tempo. O fato da fé não ter perecido da Terra é um tributo não para a sabedoria dos homens, mas para o poder de Deus.
Tendo exposto a absurda insensatez de suas palavras, o Senhor passou a dar a verdadeira explicação do que estava acontecendo. Ele era aqu’Ele mais Forte do que o homem forte, e agora estava ocupado em saquear seus bens, libertando muitos que haviam sido cativados por ele. Satanás foi amarrado na presença do Senhor.
Em terceiro lugar, Ele advertiu claramente esses homens miseráveis ​​quanto à enormidade do pecado que haviam cometido. O Servo perfeito havia libertado os homens das garras de Satanás na energia do Espírito Santo. Para evitar admitir isso, eles denunciaram a ação do Espírito Santo como uma ação de Satanás. Isso era pura blasfêmia; blasfêmia cega de homens que fecham os olhos para a verdade. Eles se colocam além do perdão com nada além da condenação eterna diante deles. Haviam chegado a esse terrível estado endurecido de ódio e cegueira que uma vez caracterizou Faraó no Egito, e que em uma data posterior marcou o reino do norte de Israel, quando a palavra do Senhor foi: “Efraim está entregue aos ídolos; deixa-o” (Os 4:17). Deus deixaria esses escribas de Jerusalém sozinhos, e isso não significava perdão, mas condenação.
Este então era o pecado imperdoável. Entendendo o que realmente é, podemos facilmente ver que as pessoas de consciência sensível, que hoje estão perturbadas porque temem que possam ter cometido esse pecado, são as últimas pessoas que poderiam realmente tê-lo cometido.
O capítulo termina com a chegada dos parentes dos quais o versículo 21 nos fala. As palavras do Senhor a respeito de Sua mãe e Seus irmãos pareceram desnecessariamente severas. Certamente havia nelas uma nota de severidade, que foi ocasionada por Sua atitude. O Senhor estava aproveitando a oportunidade para dar instruções necessárias a Seus discípulos. Eles O viram em meio a muito trabalho e aparentemente popular; e também no centro da oposição blasfema. Agora eles devem ter uma demonstração impressionante do fato de que os relacionamentos que Deus reconhece e honra são aqueles que têm uma base espiritual.

Antigamente, em Israel, os relacionamentos na carne contavam muito. Agora eles devem ser colocados de um lado em favor do espiritual. E a base do que é espiritual reside na obediência à vontade de Deus: e para nós hoje a vontade de Deus está conservada nas Sagradas Escrituras. Obediência é a grande coisa. Está na base de todo serviço verdadeiro, e deve nos marcar se estivermos em relação com o único Servo verdadeiro e perfeito. Nunca nos esqueçamos disso!

MARCOS 4

O capítulo anterior termina com a solene declaração do Senhor de que as relações que Ele agora reconheceria eram aquelas que tinham uma base espiritual em obediência à vontade de Deus. Esta Sua declaração deve necessariamente ter levantado nas mentes dos discípulos algumas perguntas sobre como eles poderiam saber qual é a vontade de Deus. Quando abrimos este capítulo, encontramos a resposta. É pela Sua Palavra, que nos transmite as boas-novas do que Ele é e do que Ele fez por nós. Sua vontade emana para nós desses dois fatos.
Ainda havia grandes multidões que iam ter com Ele, de modo que os ensinou de um barco; mas foi a partir desse momento que Ele começou a falar em parábolas. A razão para isso é dada nos versículos 11 e 12. Os líderes do povo já O haviam rejeitado, como o capítulo anterior tornou manifesto, e o próprio povo estava, em grande parte, insensível, exceto pela curiosidade e o interesse pelo sensacionalismo, e pelos “pães e peixes”. Conforme o tempo passava, eles se afastavam e apoiavam os líderes em sua hostilidade homicida. O Senhor sabia disso, por isso começou a divulgar o Seu ensino de tal forma que seria restrito apenas para aqueles que tinham ouvidos para ouvir. Ele fala no versículo 11 de “aos que estão de fora”.
Isso mostra que uma ruptura já estava se manifestando, e aqueles “de dentro” podiam ser distinguidos daqueles “de fora”. Aqueles que estão dentro podem ver e ouvir com percepção e entendimento, e assim o “mistério” ou “segredo” do reino de Deus tornou-se claro para eles. Os demais eram cegos e surdos, e o caminho da conversão e do perdão estava sendo fechado para eles. Se as pessoas não ouvirem, chega um momento em que elas não poderão mais ouvir. O povo queria um Messias que lhes trouxesse prosperidade e glória no mundo. Eles não tinham utilidade, como os eventos comprovaram, para um Messias que lhes trouxesse o reino de Deus na forma misteriosa de conversão e perdão de pecados.
Temos o reino de Deus hoje apenas nessa forma misteriosa, e entramos nele pela conversão e perdão, pois é assim que a autoridade de Deus é estabelecida em nossos corações. Ainda estamos esperando o reino ser manifestado em sua glória e poder.
A primeira parábola deste capítulo é a do semeador, semente e seus efeitos. Tendo-a proferido, Ele a terminou com palavras solenes: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. A posse de ouvidos que ouvem, ou sua falta, indicaria, de pronto, se um homem pertencia aos “de dentro” ou aos “de fora”. A massa de Seus ouvintes, evidentemente, achava que era uma história bonita e agradável ao ouvido, mas se considerada assim, mostravam que eles eram os “de fora”. Alguns outros, juntamente com os discípulos, não se contentavam com isso. Eles queriam chegar ao seu significado interior e aprofundaram suas investigações. Eles pertenciam aos “de dentro”.
A palavra do Senhor no versículo 13 mostra que essa parábola do semeador precisa ser entendida ou não entenderemos Suas outras parábolas. Ela contém a chave que desbloqueia toda a série. O Senhor Jesus, quando veio, imediatamente trouxe um teste supremo a Israel. Receberiam o Bem-Amado Filho e dariam a Deus o fruto que Lhe era devido sob o cultivo da lei? Estava se tornando evidente que isso não aconteceria. Então uma segunda coisa deveria ser introduzida. Em vez de exigir qualquer coisa deles, Ele semearia a Palavra, que no devido tempo, pelo menos em alguns casos, produziria o fruto desejado. Isto é o que esta parábola indica, e a menos que entendamos seu significado, não entenderemos o que Ele tem a nos dizer na sequência.
O próprio Senhor era o Semeador, sem dúvida, e a Palavra era o testemunho divino que Ele disseminava, pois era a “tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2:3). No evangelho de João, descobrimos que Jesus é a Palavra. Aqui Ele semeia a Palavra. Quem poderia semear como Ele que era ela mesma? Mas mesmo quando Ele semeou a Palavra, nem todos os grãos que semeava frutificaram. Apenas um caso em quatro, produziu fruto.
Também é certo que a parábola aplica-se, em seus princípios, a todos aqueles subsemeadores que saíram com a Palavra conforme enviados por Ele, desde aquele dia até hoje. Todo semeador, portanto, deve esperar encontrar todas essas variedades de experiência, como indicado na parábola. Os servos imperfeitos de hoje não podem esperar coisas melhores do que aquelas que marcam a semeadura do Servo perfeito em Seus dias. A semente foi a mesma em cada caso. Toda a diferença estava no estado do solo no qual a semente caía.
No caso dos ouvintes à beira do caminho, a palavra não teve entrada alguma. Seus corações eram como o caminho bem pisado. Não houve nem mesmo uma impressão superficial, e Satanás, por seus muitos agentes, removeu completamente a palavra. O caso deles era de total indiferença.
Os ouvintes do solo pedregoso são as pessoas impressionáveis, mas superficiais. Eles logo respondem à palavra com alegria, mas são bastante insensíveis quanto às suas verdadeiras implicações. Foi dito dos verdadeiros convertidos que eles receberam “a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo” (1 Ts 1:6). Essa tribulação, que precedeu a sua alegria, foi o resultado de serem despertados quanto ao seu pecado sob o poder convincente da palavra. O ouvinte do solo pedregoso salta por sobre a aflição, porque é insensível à sua real necessidade, e pousa numa alegria meramente superficial, que se desvanece na presença da provação; e ele desaparece com isso.
Os ouvintes do solo espinhoso são as pessoas preocupadas. O mundo preenche seus pensamentos. Se forem pobres, são inundados em seus cuidados: se ricos, em suas riquezas e nos prazeres que as riquezas trazem. Se nem pobre nem rico, há a cobiça de outras coisas. Eles saíram da pobreza e anseiam por mais coisas boas do mundo que parecem estar ao alcance deles. Absorvido pelo mundo, a palavra é sufocada.
Os ouvintes do solo bom são tais que não apenas ouvem a palavra, mas a recebem e produzem frutos. O solo está sob a ação do arado e da grade. Assim foi preparado. Mesmo assim, todo bom terreno não é igualmente fértil. Pode não haver a mesma quantidade de fruto; mas existe o fruto.
Houve grande instrução para os discípulos em tudo isso e também para nós. Em breve, Ele os enviaria a pregar, e então eles também se tornariam semeadores. Eles devem saber que era a palavra que tinham que semear e também o que esperar quando semeassem. Então eles não seriam indevidamente afetados quando grande parte da semente semeada se mostrassse perdida; ou quando, algum resultado aparecendo, desapareceu depois de um tempo; ou mesmo quando o fruto apareceu, não havia tanto fruto como eles esperavam. Se sabemos, por um lado, o que está sendo visado e, por outro, o que esperar, ficamos grandemente fortalecidos em nosso serviço.
Devemos lembrar que esta parábola se aplica tanto para a semeadura da semente da palavra nos corações dos santos como nos corações dos pecadores. Então, vamos meditar sobre isso com corações muito exercitados sobre como nós mesmos recebemos a palavra que temos ouvido, bem como a forma como os outros podem receber a palavra que lhes apresentamos.
Nos versículos 21 e 22, segue-se a breve parábola da candeia e, no versículo 23, outra palavra de advertência sobre ter ouvidos para ouvir. À primeira vista, a transição da semente semeada no campo para a candeia acesa em uma casa pode parecer incongruente e desconectada, mas, se é certo que temos ouvidos para ouvir, logo veremos que o significado espiritual de ambas as parábolas são congruentes e conectados. Quando a palavra de Deus é recebida em um coração exercitado e preparado, produz frutos que Deus aprecia e também luz que deve ser vista e apreciada pelos homens.
Nenhuma candeia é acesa para se esconder debaixo do alqueire[1] ou da cama. É para amplamente lançar seus feixes de luz desde o candelabro. A segunda parte do versículo 22 é bastante notável na tradução de J. N. Darby, “nem qualquer coisa secreta acontece, mas ela deve vir à luz”. A obra de Deus no coração pela Sua palavra ocorre secretamente, e o olho de Deus discerne o fruto quando ele começa a aparecer. Mas na época certa, a coisa secreta que aconteceu deve vir à luz. Toda conversão verdadeira é como a iluminação de uma nova candeia.
O alqueire talvez simbolize as ocupações da vida, e a cama, a tranquilidade e o prazer da vida. Não deve ser permitido que a luz seja ocultada, assim como não deve ser permitido que os cuidados, as riquezas e as “outras coisas” sufoquem a semente que é semeada. Temos ouvidos para ouvir isso? Estamos deixando a luz da nossa pequena candeia brilhar? Não há nada oculto que não seja manifesto; por isso é certo que, se uma luz foi acesa, está destinada a brilhar. Se nada é manifestado, é porque não há nada para se manifestar.
Esta parábola é seguida pela advertência sobre o que ouvimos. As relações de Deus em Seu governo com os homens entram neste assunto. Conforme medimos as coisas, as coisas serão medidas para nós. Se realmente ouvirmos a palavra de modo a tomar posse dela, ganharemos mais. Se não o fizermos, começaremos a perder até mesmo o que temos. Em Lucas 8:18, recebemos instruções similares relacionadas a “como” ouvimos. Aqui elas estão conectadas com “o que” ouvimos.
Como ouvimos é enfatizado na parábola do semeador, mas o que ouvimos é pelo menos de igual importância. De não poucos foi tirado o que tinham, por terem emprestado os seus ouvidos ao erro. Eles ouviram e ouviram muito atentamente, mas, infelizmente, o que ouviram não era a verdade, e isso os perverteu. Se por nossos ouvidos o erro é semeado em nossos corações, isso trará sua desastrosa colheita, e o governo de Deus permitirá isto, e não o impedirá.
Os versículos 26 a 29 estão ocupados com a parábola a respeito da obra secreta de Deus. Um homem semeia a semente e, quando o fruto está maduro, ele volta a trabalhar, colocando a foice para colher. Mas quanto ao crescimento real da semente desde os seus primeiros estágios até o pleno amadurecimento, ele não pode fazer nada. Por muitas semanas ele dorme e se levanta noite e dia, e os processos da natureza, que Deus ordenou, fazem silenciosamente o trabalho, embora ele não os entenda. “Não sabendo ele como”, é verdade hoje. Os homens têm levado suas investigações muito longe, mas o verdadeiro modo dos maravilhosos processos, levados adiante na grande oficina da natureza de Deus, ainda lhes escapam.
E assim acontece no que podemos chamar de oficina espiritual de Deus, e é bom que nos lembrarmos disso. Alguns de nós somos muito ansiosos para analisar e descrever os processos exatos do trabalho do Espírito nas almas. Essas coisas ocultas às vezes exercem um grande fascínio sobre nossas mentes e desejamos dominar todo o processo. Isso não pode ser feito. É nosso feliz privilégio semear a semente e também, no devido tempo, colocar a foice e ceifar. O funcionamento da palavra nos corações dos homens é secretamente realizado pelo Espírito Santo. Seu trabalho, sem dúvida, é perfeito.
A imperfeição sempre marca o trabalho dos homens. Se permitido, como somos, a ter uma mão na obra de Deus, trazemos a imperfeição para aquilo que fazemos. A próxima parábola, ocupando os versículos 30 a 32, mostra isso. O reino de Deus hoje existe vital e realmente nas almas daqueles que pela conversão vieram sob a autoridade e controle de Deus. Mas também pode ser visto como uma coisa mais exterior, a ser encontrada onde quer que os homens professem reconhecê-Lo. Um é o reino estabelecido pelo Espírito. O outro, o reino estabelecido pelos homens. Este último se tornou uma coisa grande e imponente na Terra, estendendo sua proteção a muitas “aves do céus”; o que elas significam acabamos de ver – nos versículos 4 e 15 – os agentes de Satanás.
Essa última parábola da série estava cheia de advertência para os discípulos, assim como as outras estavam cheias de instrução. Eles estavam com Ele sendo instruídos antes de serem enviados em sua missão. Vimos pelo menos sete coisas:

1. Que a presente obra do discípulo é, em sua natureza, semear.
2. Que o que deve ser semeado é a palavra.
3. Que os resultados da semeadura são classificados em quatro grupos; em apenas um caso há frutos e em graus variados.
4. Que a palavra produz tanto luz quanto fruto, e que a luz deve ser manifesta publicamente.
5. Que o discípulo é ele próprio um ouvinte da palavra, bem como um semeador da palavra, e, nesse contexto, deve tomar cuidado com o que ouve.
6. Que o trabalho da palavra nas almas é obra de Deus e não nosso. Nosso trabalho é a semeadura e a colheita.
7. Que, como o trabalho do homem entra para a  presente obra de estender o reino de Deus, o mal vai encontrar uma entrada. O reino, visto como obra do homem, vai resultar em algo imponente, porém corrupto. Esta é a solene advertência que devemos ter no coração.

Houve muitas outras parábolas faladas pelo Senhor, mas que não foram registradas para nós. As outras, faladas e explicadas  asire...amvaaos discípulos, eram, sem dúvida, muito importantes para eles em suas circunstâncias peculiares, mas não da mesma importância para nós. Aquelas que eram importantes para nós estão registradas em Mateus 13.
Com o versículo 34 Seus ensinamentos terminam e do versículo 35 até ao final de Marcos 5 retomamos o relato de Seus maravilhosos atos. Os discípulos precisavam observar de perto o que Ele fazia e o modo como agia, bem como ouvir os ensinamentos de Seus lábios. E nós também precisamos.
A multidão, que ouviu essas palavras, mas sem entendê-las, foi dispensada e eles atravessaram para o outro lado do lago. Era noite e Ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada. O lago se mostrou com súbita e violenta tempestade que o agitava, e um perigo especial surgiu, ameaçando afundar o barco. Satanás é “o príncipe das potestades do ar” e, portanto, acreditamos que seu poder está por trás das forças da natureza. Imediatamente, portanto, os discípulos foram confrontados com uma prova e um desafio. Quem era essa Pessoa que dormia na popa?
Poderia Satanás manejar as forças da natureza de tal maneira a afundar um barco no qual repousava o Filho de Deus? Mas o Filho de Deus é encontrado em Humanidade e Ele dorme! Bem, o que isso importa? – visto que Ele é o Filho de Deus. A ação do adversário, levantando a tempestade enquanto Ele dormia, foi de fato um desafio. Até agora, porém, os discípulos perceberam essas coisas muito vagamente, se é que perceberam. Então ficaram cheios de temor quando os recursos de suas habilidades marítimas foram exauridos; eles O despertaram com um clamor incrédulo, que lançou uma ofensa sobre Sua bondade e amor, embora mostrando alguma fé em Seu poder.
Ele surgiu imediatamente na majestade de Seu poder. Ele repreendeu o vento, que era o instrumento mais direto de Satanás. Ele disse ao mar para ficar quieto e imóvel, e ele obedeceu. Como um cão barulhento que se deita humildemente à voz de seu dono, assim o mar se deitou a Seus pés. Ele era o Mestre pleno da situação.
Tendo assim repreendido as forças da natureza e o poder que estava por trás delas, Ele Se voltou para administrar uma gentil repreensão a Seus discípulos. Fé é visão espiritual, e até agora seus olhos dificilmente estavam abertos para discernir Quem Ele era. Se eles tivessem percebido um pouco de Sua própria glória, não teriam sido tão temerosos. E tendo testemunhado esta demonstração de Seu poder, eles ainda estavam temerosos, e ainda questionavam sobre que tipo de Homem era Ele. Um Homem que pode comandar ventos e mar, e eles fazem Sua vontade, obviamente não é um Homem comum. Mas Quem é Ele? – essa é a questão.
Nenhum discípulo poderia sair para servi-Lo até que essa pergunta fosse respondida e completamente estabelecida em sua alma. Por isso, antes de enviá-los, deve haver mais manifestações de Seu poder e graça diante de seus olhos, como registrado para nós no capítulo 5.
Em nossos dias, devemos também estar plenamente seguros de Quem é Ele, antes de tentarmos servi-Lo. A pergunta: “Quem é Este?” é muito insistente. Até que possamos responder com muita precisão e clareza, devemos nos aquietar.



[1] N. do T.: Alqueire (do árabe al kayl) designava originalmente uma das bolsas ou cestas de carga que se colocavam, atadas, sobre o dorso e pendente para ambos os lados dos animais usados para transporte de carga.

MARCOS 5

A convicção, quanto ao “Quem” o Senhor Jesus é, uma vez tendo sido alcançada pela fé, traz consigo a certeza de que Ele deve atender todas as emergências de igual modo. Contudo, mesmo assim, é bom que o discípulo realmente O veja lidando com os homens e com os problemas que lhes sobrevieram em razão do pecado, em Sua libertadora misericórdia. Neste capítulo, vemos o Senhor demonstrando Seu poder e, assim, instruindo ainda mais os discípulos. Que a instrução pode ser nossa também à medida que avançamos no relato.
Ao cruzar o lago, o poder de Satanás esteve em ação oculto atrás da fúria da tempestade: ao chegar ao outro lado, tornou-se muito manifesto no homem com um espírito impuro. Derrotado em seus trabalhos mais secretos, o adversário agora lança um desafio aberto sem perda de tempo, pois o homem O encontrou imediatamente quando Ele desembarcou. Foi uma espécie de teste. O diabo transformara o pobre homem em uma fortaleza que ele esperava manter a todo custo; e na fortaleza ele havia lançado toda uma legião de demônios. Se alguma vez um homem foi mantido em cativeiro sem esperança sob os poderes das trevas, esse era o homem. Em sua história, vemos espelhada a profundeza em que a humanidade afundou sob o poder de Satanás.
Ele “tinha sua morada nos sepulcros” e os homens de hoje vivem em um mundo que está se tornando cada vez mais um vasto cemitério enquanto geração após geração passa à morte. Então, “nem ainda com cadeias o podia alguém prender”, pois grilhões e correntes tinham sido frequentemente tentados sem nenhum resultado. Ele estava além da detenção. Portanto, hoje não faltam movimentos e métodos destinados a coibir as más propensões dos homens, a restringir suas ações mais violentas e reduzir o mundo ao prazer e à ordem. Mas tudo é em vão.
Então, com o endemoninhado, outra coisa foi tentada. Poderia sua natureza ser mudada? Afirma-se, no entanto, que “ninguém o podia amansar”; então essa pergunta foi respondida de forma negativa. Assim tem sido sempre: não há mais poder nos homens para mudar suas naturezas do que há para coibi-las e reprimi-las, para que elas não ajam. “a inclinação da carne ... não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Rm 8:7), por isso não pode ser contida. Novamente, “o que é nascido da carne é carne” (Jo 3:6), não importa quais tentativas possam ser feitas para melhorá-la. Por isso, não pode ser alterada ou modificada.
“Sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros” – totalmente inquieto –  “clamando” – completamente infeliz – “ferindo-se com pedras” – prejudicando-se em sua loucura. Que cena!
E devemos acrescentar que cena característica do homem sob o poder de Satanás! Este foi um caso excepcional, é verdade. O domínio de Satanás sobre a maioria é de um tipo menos violento e os sintomas são muito menos pronunciados; porém ainda estão lá. O clamor da humanidade pode ser ouvido, pois os homens se prejudicam por seus pecados.
Quando o homem falou, as palavras foram proferidas por seus lábios, mas a inteligência por trás delas era a dos demônios que o controlavam. Eles sabiam que tipo de homem o Senhor era, mesmo que outros não o soubessem. Por outro lado, eles não conheciam a maneira de Seu serviço. Haverá, verdadeiramente um momento quando o Senhor entregará esses demônios junto com Satanás, seu mestre, ao tormento, mas essa não era Sua obra naquele momento. Muito menos era a maneira de Seu serviço naquele tempo em relação aos homens. Para o endemoninhado Jesus veio trazendo, não tormento, mas livramento.
O Senhor mandou que os demônios saíssem e eles sabiam que não podiam resistir. Eles estavam na presença da Onipotência, e eles devem fazer o que lhes foi dito. Eles tinham até que pedir permissão para entrar nos porcos que estavam se alimentando não muito longe. Os porcos, sendo animais imundos de acordo com a lei, não deviam estar lá. Sendo os demônios imundos também, havia uma afinidade entre eles e os porcos, uma afinidade com resultados fatais para os animais. Os demônios haviam levado o homem à autodestruição, usando as pedras afiadas; com os porcos, o impulso foi imediato e completo. O homem foi libertado; os porcos foram destruídos.
O resultado, em relação ao próprio homem, foi de gozo. Suas inquietas peregrinações haviam terminado, porque ele estava “assentado”. Anteriormente ele “não andava vestido”, como Lucas nos diz (Lc 8:27), agora ele está “vestido”. Suas delusões cessaram, pois ele está “em perfeito juízo”. A aplicação do evangelho em tudo isso é muito evidente.
O resultado, no que diz respeito às pessoas dessas partes, foi muito trágico. Eles manifestaram um pensamento que era tudo menos correto, embora nenhum demônio tivesse entrado neles. Eles não tinham entendimento ou apreciação por Cristo. Por outro lado, eles apreciavam e entendiam os porcos. Se a presença de Jesus significasse ausência de porcos, mesmo que também significasse ausência de um furioso endemoninhado, então eles prefeririam não tê-la. Eles começaram a rogar-Lhe para que Ele partisse de seus territórios.
O Senhor concedeu o desejo deles e partiu. A tragédia disso foi muito grande, embora eles não tenham percebido isso naquele momento. Ela foi sucedida por uma ainda maior tragédia: a do Filho de Deus sendo expulso deste mundo; e agora temos dezenove séculos[1] cheios de todo tipo de mal como resultado disso. A partida do Senhor criou uma nova situação para o homem que acabou de ser libertado dos demônios. Ele naturalmente desejou a presença de seu Libertador, mas foi instruído que, no momento, ele deveria se contentar em permanecer no lugar de Sua ausência e ali testemunhar para Ele, particularmente para seus próprios amigos.
Nossa posição hoje é muito parecida. No presente momento, gostaríamos de estar com Ele, mas agora nossa porção é testemunhar d’Ele no lugar onde Ele não está. Também podemos dizer aos nossos amigos que grandes coisas o Senhor tem feito por nós.
Tendo atravessado novamente o lago, o Senhor foi imediatamente confrontado com outros casos de necessidade humana. Em Seu caminho para a casa de Jairo, onde estava sua filha perto da morte, Ele foi interceptado pela mulher com um fluxo de sangue. Ela tinha estado doente por doze anos e totalmente além de toda a habilidade dos médicos. O caso dela era sem esperança, tanto quanto o caso do endemoninhado. Ele estava em um desamparado cativeiro por uma grande multidão de demônios, e ela também, por uma doença incurável.
Novamente, podemos ver uma analogia com o estado espiritual da humanidade e, particularmente, com os esforços de uma alma despertada, conforme descrito em Romanos 7. Há muitas lutas e esforços muito severos, mas “sem nada aproveitar, antes ficando cada vez pior” (v. 26 – TB). Este era o resultado do caso delineado ali, até que a alma chegue ao fim de suas buscas, tendo “gastado tudo” (TB), e tenha “ouvido falar a respeito de Jesus” (TB). Então, terminando todos os esforços de aperfeiçoamento próprio e vindo a Jesus, Ele Se mostra ser o grande Libertador.
No caso do homem, dificilmente podemos falar de fé, pois ele foi completamente dominado pelos demônios. No caso da mulher, só podemos falar de uma fé imperfeita. Ela estava confiante em Seu poder, um poder tão grande que até mesmo Suas roupas poderiam transmitir-lhe esse poder; mas ainda duvidava de Sua acessibilidade. As aglomerações de multidões a impediram, e ela não percebeu quão completamente Ele – o Servo perfeito – estava à disposição de todos os que precisavam d’Ele. No entanto, a cura que ela precisava era dela mesma, apesar de tudo. O acesso de que ela precisava foi possível, e a bênção foi trazida a ela. Satisfeita com a bênção, ela teria se retirado ocultamente.
Mas isso não era para ser assim. Ela também deveria dar testemunho daquilo que Seu poder havia operado, e por meio disso ela receberia uma bênção adicional para si mesma. Os tratamentos do Senhor com ela estão cheios de instrução espiritual.
O perfeito conhecimento de Jesus vem à luz. Ele sabia que a virtude tinha saído de Si e que o toque havia sido em Suas roupas. Ele fez a pergunta, mas Ele sabia a resposta; pois olhou em volta para ver “quem” tinha feito isso.
Sua pergunta também trouxe à luz o fato de que muitos O haviam tocado de várias maneiras, mas nenhum outro toque tirou qualquer virtude d’Ele. Por que isso? Porque, de todos os toques, o dela era o único que surgiu de uma consciência de necessidade e fé. Quando essas duas coisas estão presentes, o toque é sempre eficaz.
Muitos de nós seríamos como a mulher e desejaríamos obter a bênção sem qualquer reconhecimento público do Abençoador. Isso não deve ser assim. É devido a Ele que confessemos a verdade e tornemos conhecida Sua graça salvadora. Virtude saiu diretamente d’Ele para nossa libertação, e o tempo de prestar testemunho chegou para nós. Assim como o homem deveria ir para casa, para seus amigos, a mulher teve que se prostrar aos Seus pés em público. Ambos deram testemunho d’Ele; e, note-se, isso foi no sentido oposto ao que poderíamos esperar. A maioria dos homens acharia o testemunho em casa o mais difícil: a maioria das mulheres acharia o testemunho em público o mais difícil. Mas o homem tinha que falar em casa e a mulher na presença da multidão. Ela falou, porém, não para a multidão, mas para Ele.
Como fruto de sua confissão, a própria mulher recebeu mais uma bênção. Ela obteve a certeza definitiva de Sua palavra, que sua cura foi inteira e completa. Poucos minutos antes, ela sentiu no seu corpo estar já curada” e confessou que sabia o que lhe havia acontecido”. Isso foi muito bom, mas não foi o suficiente. Se o Senhor permitisse que ela fosse embora simplesmente com esses “sentimentos” agradáveis ​​e esse “conhecimento” do que havia sido “feito a ela”, estaria aberta a muitas dúvidas e temores nos dias que viriam. Cada pequeno sentimento de indisposição aumentaria a ansiedade quanto ao fato de sua antiga doença voltar a ocorrer. Assim, ela recebeu a Sua palavra definitiva: “Sê curada desse teu mal”. Isso resolvido. Sua palavra era muito mais confiável do que seus sentimentos.
Então, isso é conosco. Algo foi realmente feito em nós pelo Espírito de Deus na conversão, e sabemos disso, e nossos sentimentos podem ser felizes: ainda assim, não há qualquer base sólida sobre a qual a certeza possa descansar em sentimentos, ou no que tem sido feito em nós. A base sólida para a certeza é achada na Palavra do Senhor. Hoje em dia, não poucos têm falta de segurança apenas porque cometeram o erro que a mulher estava prestes a cometer. Eles nunca confessaram propriamente a Cristo e nem reconheceram sua dívida para com Ele. Se eles corrigirem esse erro como a mulher fez, eles terão a certeza da Sua Palavra.
No exato momento da libertação da mulher, o caso da filha de Jairo assumiu um tom mais sombrio. Notícias de sua morte chegaram, e aqueles que enviaram a mensagem presumiram que, embora a doença pudesse desaparecer diante do poder de Jesus, a morte estava fora de Seu domínio. Temos visto Ele triunfar sobre demônios e doenças, mesmo quando as vítimas estavam além de toda ajuda humana. A morte é a coisa mais sem esperança de todas. Pode Ele triunfar sobre isso? Ele pode e o fez.
A maneira que Ele sustentou a fé vacilante do principal da sinagoga é muito bonita. Jairo estava bastante confiante quanto à Sua capacidade de curar; mas agora, e a morte? Esse foi o grande teste à sua fé, como também do poder de Jesus. “Não temas, crê somente”, era a palavra. A fé em Cristo irá remover o medo da morte para nós, bem como para ele.
A morte era apenas um sono para Jesus, mas os pranteadores profissionais zombavam d’Ele em sua incredulidade. Então, Ele os removeu e, na presença dos pais e dos discípulos que estavam com Ele, restaurou a menina à vida. Assim, pela terceira vez neste capítulo, a libertação é trazida àquele que está além de toda a esperança humana.
Mas o início do versículo 43 está em nítido contraste com os versículos 19 e 33. Desta vez não deveria haver qualquer testemunho disso; Isso se deve, supomos, pela incredulidade desdenhosa que acabara de se manifestar. Ao mesmo tempo, havia a mais cuidadosa consideração quanto às necessidades da menina com relação à alimentação, assim como havia sido para a necessidade espiritual de Jairo um pouco antes. Ele pensou tanto em seu corpo quanto em sua fé.



[1] N. do T.: O autor – Frank Binford Hole – viveu entre 1874 e 1964.